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A irmã morte corporal

Na próxima sexta-feira celebraremos o dia de Finados. Todos os povos, desde os primeiros e mais antigos grupos humanos, sempre reverenciaram os seus mortos e, de alguma forma, refletiram ou expressaram seus sentimentos diante do mistério da morte. De fato, a morte não é somente um dos mistérios humanos entre outros, mas, ela é o grande mistério. Muitos pensadores das ciências humanas afirmam que, talvez, o único problema que marca, de fato, toda a existência humana seja a morte. Todos os outros problemas e questionamentos humanos teriam sempre como sua referência última, a morte.

Para nós que temos fé a morte tem significado fundamental. Para nós crentes a vida não é o ponto final da existência, mas o início de uma nova etapa da vida. A morte é comparada a uma porta que se fecha para essa vida e se abre para a outra. Ou uma ponte por onde atravessamos para a outra margem da eternidade.

Para nós que cremos, cada dia que passa não é um dia a menos de vida, pelo contrário, é um dia a mais de vida. É maravilhoso crer que esse crescendo cronológico da existência é infinito. A vida não termina na escuridão do nada, como uma lâmpada queimada. Ela desemboca na incomensurável luz da eternidade em Deus. Por isso São Francisco a chamará de irmã morte e o místico carmelita São João da Cruz dirá que a morte é o doce encontro.

Racionalmente falando, a vida e a morte não têm sentido ou explicação cabal. Somente a fé é capaz de elevar e dar sentido à vida e à morte. Racionalmente a morte é algo que causa grande temor, além da dor da perda e o sofrimento da separação. Jesus chorou ao saber que seu amigo Lázaro tinha morrido. Não há palavras diante da morte, somente o silêncio é possível. Além disso, a morte é uma grande humilhação para o ser humano. Daqui o fato de muitos se desesperarem diante dela que, inexoravelmente, se aproxima. É questão de tempo, literalmente.

Excluindo a juventude que, com razão, ainda não tem noção real da morte, nós os adultos e os mais provectos vamos percebendo sua tremenda realidade. Muitos se rebelam contra ela usando vários artifícios: alguns negam a decadência física da idade e querem manter uma fictícia juventude, iludindo-se com remédios milagrosos, cirurgias e tratamentos estéticos igualmente milagrosos, além de caros e, às vezes, perigosos para a saúde. Outros querem manter uma juventude psicológica, apostando em um falso autoconvencimento de que são jovens.

Nós os crentes, também sofremos as limitações e dores próprias da condição humana, todavia, não paramos nelas. O olhar da fé nos faz ver além. Sabemos que viemos de Deus, que Ele nos criou e nos colocou nesse mundo para realizar a nossa missão. A primeira e essencial missão de todo ser humano é enfrentar, acolher e viver a própria vida do jeito que ela vem. Muitos querem, orgulhosamente, que a vida seja do jeito que eles sonharam ou planejaram. Acima dos nosso sonhos e projetos, existe a misteriosa e amorosa vontade de Deus. Deus é o Senhor da história, Ele criou e conduz todas as coisas, sempre respeitando ao extremo nossa liberdade de decisão (livre arbítrio) e as leis da natureza que as ciências devem conhecer e dominá-las para o bem da humanidade.

Dia de finado é dia também de rezar pelos mortos. Somos uma família espiritual cuja união a morte corporal não é capaz de destruir. Formamos um só corpo e, na oração do Creio, afirmamos crer na Comunhão dos Santos. Nessa família espiritual, uma das formas concretas de amar uns aos outros é orar uns pelos outros: os justos intercedem pelos pecadores, nós os pecadores rezamos uns pelos outros, os vivos rezam pelos falecidos, os que estão no céu (os santos) intercedem por nós que vivemos.

Sobre meu túmulo, se pudesse decidir, colocaria essa linda poesia da Irmã Marie Ange Robbe:

 PARA MEU AMIGO

Quando eu morrer, e você quiser dizer uma palavra à minha vida que foi, não ponha sobre a terra que me cobre, a rosa, bela demais.

Nem o jasmim, por seu aroma indiscreto.

Não ponha a magnólia porque é fidalga, e fala melhor às vidas que foram grandes.

Não ponha a violeta que é a mais humilde e, eu deveria ser, mas não fui.

Não ponha nenhuma flor de cor amarela, a cor da luz, porque andei entre as sombras, amei a penumbra, bebi todos os cinzas e você não vai achar nenhuma flor da cor neutra, que se apaga para o outro brilhar.

Quando eu morrer, plante ali a hera.

Que se agarra e cresce, que vive e morre onde nasceu.

Fiel!

Dom Sevilha, OCD.

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