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A Copa do Mundo e a perspectiva cristã do esporte

O artigo, na íntegra, pode ser conferido  no site da diocese ou pode-se consultar a edição impressa. Reproduzimos abaixo, com autorização do bispo de Jundiaí (SP), Dom Vicente Costa, o artigo do qual ele é autor.

“Uma coisa, porém, faço: esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente. Lanço-me em direção à meta” (Fl 3,13-14).

A Copa do Mundo é momento muito marcante para o povo brasileiro, pois todos se unem numa única torcida, com grande paixão e entusiasmo, para que o Brasil seja novamente o Campeão Mundial de Futebol. A Seleção Brasileira de Futebol, formada em 1914, é considerada um dos maiores símbolos do país: é chamada de “seleção verde-amarela”, “seleção canarinho” ou “seleção amarelinha”. É uma das seleções mais bem-sucedidas da história do futebol mundial, com cinco títulos: 1958 (Suécia), 1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos) e 2002 (Japão e Coreia do Sul). Portanto, é a única seleção que venceu a Copa cinco vezes e em três continentes distintos (Europa, América do Norte e Ásia). Após o fracasso da última Copa do Mundo, realizado no Brasil, em 2014, todos torcem por resultados bem mais promissores e animadores.

A identificação cristã com o esporte foi muito presente nos primórdios da Igreja, que se serve da prática da atividade esportiva, da disputa saudável, da busca pela superação como metáfora para o esforço da própria peregrinação na fé em Jesus Cristo, durante a vida. Lutas e maratonas eram populares no tempo do Apóstolo Paulo, que relacionou a prática cristã ao esporte (cf. 2Tm 4,7-8). Sempre é bom destacar que “o bom combate” a que se refere São Paulo é a vida cristã, a batalha para testemunhar o Cristo Ressuscitado em nossas vidas, sendo seus discípulos missionários. Podemos dizer, interpretando as palavras de São Paulo (cf. Fl 3,13-14), que Copa do Mundo é tempo de “esquecer o que ficou para trás”, isto é, as derrotas e decepções, para “lançar-se para o que está à frente”, “lançar-se em direção à meta” em busca de novas vitórias, da tão cobiçada Copa do Mundo.

Queridos irmãos diocesanos: a realização de mais uma modalidade mundial de esporte faz lembrar a perspectiva cristã do esporte, particularmente da prática do futebol, tão acompanhado e praticado por muitos. Por ocasião da publicação do documento: Dar o melhor de si, no dia 1º de junho deste ano, pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida (um dos Departamentos do governo da Igreja Católica que compõem a Cúria Romana), o Papa Francisco, grande apreciador do time de futebol argentino, San Lorenzo, da cidade capital de Buenos Aires, enviou uma mensagem sobre esta temática ao Cardeal Kevin Farrell, Prefeito do referido Dicastério.

Para o Papa Francisco o esporte pode constituir um instrumento de encontro, formação, missão e santificação. Numa cultura dominada pelo individualismo e pelo descarte das jovens gerações e dos idosos, o esporte pode ser “um âmbito privilegiado em volta do qual as pessoas se encontram sem distinções de raça, sexo, religião ou ideologia, e onde podemos experimentar a alegria de competir para alcançar uma meta juntos, participando num grupo no qual o sucesso ou a derrota são compartilhados e superados”. No esporte todos procuram alcançar um resultado comum, um objetivo almejado por todos.

Em segundo lugar, o esporte é também um veículo de formação e desenvolvimento integral da pessoa, principalmente para as gerações novas que olham e se inspiram nos desportistas. Estes devem ser exemplos de virtudes como: “A generosidade, a humildade, o sacrifício, a constância e a alegria. Do mesmo modo, deveriam oferecer a sua contribuição para o que se refere ao espírito de grupo, ao respeito, à competição saudável e à solidariedade para com os outros”.
O Papa Francisco afirma também que o esporte pode ser meio de missão e santificação. Missão de anunciar a mensagem do Evangelho, descobrindo as potencialidades da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. “O esporte pode abrir o caminho rumo a Cristo nos lugares ou ambientes onde, por vários motivos, não é possível anunciá-lo de modo direto; e as pessoas, com o seu testemunho de alegria, praticando o esporte de forma comunitária, podem ser mensageiras da Boa Nova”. Neste sentido, segundo o Papa, “dar o melhor de si mesmo no esporte é também um chamado a aspirar à santidade”, pois “o esforço de se superar numa disciplina atlética sirva também de estímulo para melhorar sempre como pessoa em todos os aspectos da vida. (…) Assim como o atleta durante o treino, também a prática desportiva nos ajuda a dar o melhor de nós mesmos, a descobrir sem medo os nossos limites e a lutar para melhorar todos os dias”.
Queridos irmãos diocesanos, gostaria de salientar, do já citado documento: Dar o melhor de si – documento este bastante longo em cinco capítulos e com cerca de 50 páginas – apenas três pontos (cf. 4.3. do documento) que muito têm a ver com a realização da 21ª Copa do Mundo. São exemplos do fair play, ou seja, do “jogo limpo”, que deve ser praticado para não prejudicar o adversário de forma proposital e que deve ser a grande norma a ser sempre seguida nos estádios, como também no convívio humano.

Em primeiro lugar, é importante enfatizar que, sendo o esporte “um lugar de encontro”, deve sempre reinar um clima de respeito e harmonia. Os torcedores, nos campos de futebol, como também os telespectadores dos jogos devem superar a tentação de qualquer forma de agressão e de violência.

Em segundo lugar, a questão do doping, ou seja, a utilização de substâncias proibidas no esporte, que podem tornar o atleta mais forte e mais rápido, sendo esta prática considerada uma espécie de trapaça. Segundo o documento do Dicastério, o doping leva o esporte à ruína, pois representa uma mentalidade perigosa da “vitória a todo custo”, além de prejudicar gravemente a saúde dos próprios atletas.
Por fim, não se admite qualquer forma de corrupção, pois esta prática corrompe o sentido de competição dos jogadores e dos telespectadores, que são deliberadamente trufados e enganados. As decisões no mundo esportivo não podem ser feitas por atores externos, seguindo interesses financeiros ou políticos.

Queridos diocesanos: O documento do Dicastério termina com as palavras do Papa Francisco aos esportistas: “Não tenham medo de entrar em jogo com os outros e com Deus e não se contentem com um empate ‘medíocre’. É o convite: ‘dar o melhor de si’ pelo ‘que dura para sempre’” (07/06/2014).

Força, Brasil! Que venha o Hexa! E a todos abençoo”.

Dom Vicente Costa, Bispo Diocesano de Jundiaí

O artigo completo foi publicado no Jornal O Verbo, Ano 21, nº 502.

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