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A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2019

Irmãos e Irmãs!

Iniciamos na Quarta – feira de Cinzas, com toda a Igreja, o tempo da Quaresma, tempo favorável à conversão como desejo sincero de voltar ao Projeto amoroso de Deus, realizado em Jesus, o “Servo obediente e fiel” (cf Fl 2, 6-8) que, tendo amado os seus até o fim, glorificou o Pai e realizou a reconciliação de toda a humanidade. Com o evangelista Lucas nos unimos a ele, solidário com os pequenos e pobres, acolhedor e misericordioso, abrindo caminhos para a liberdade e a vida.

Desejamos nesta Quaresma estar com ele no deserto, para renovar nosso batismo, acolher no silêncio e na alegria a Palavra de Deus e, pela oração, jejum e  esmola – partilha, expressar nossa comunhão e solidariedade com aqueles que são os seus preferidos, os últimos e descartados de nossa sociedade.

A Igreja no Brasil, desde 1964, vivencia a espiritualidade quaresmal com a Campanha da Fraternidade, sempre a partir de uma realidade desafiadora a ser meditada, refletida e rezada, visando ao bem de toda a sociedade. O tema proposto para este ano é: “Fraternidade e Políticas Públicas”, com o lema: “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (cf Is 1,27).

A metodologia da Campanha da Fraternidade abre caminhos para compreender e contextualizar de modo privilegiado, no hoje de nossa caminhada, o alcance da oração, do jejum e da esmola como um programa de volta ao Deus da vida. Na oração, a abertura a ele como absoluto e a certeza de sua presença em nossa vida. No jejum, a superação do supérfluo cuidando para viver do essencial. Na esmola – partilha, o encontro com o outro para doar-se, mais do que dar alguma coisa. É assim que compreendemos com o Papa Francisco todo o sentido da Quaresma como um tempo favorável para que os cristãos saiam da própria alienação existencial.

Mas, buscando compreender a proposta da Campanha da Fraternidade, o que são Políticas Públicas?

“São ações e programas que são desenvolvidos pelo Estado para garantir e colocar em prática direitos que são previstos na Constituição Federal e em outras leis” (Texto Base nº 14). Reportando-nos a Constituição Federal, nossa Carta Magna de 1988, encontraremos no Capítulo 2º, artigos 6º e 7º,  os Direitos Sociais a serem preservados. Entre eles, destacamos as necessidades vitais básicas de uma família: moradia, salário mínimo fixado em lei, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte, segurança, previdência social…, portanto, tudo o que tem a ver com o cotidiano das pessoas e de toda a população.

As Políticas Públicas são somente ações do governo?

Não. Elas implicam também a “relação entre as instituições e os diversos atores, sejam individuais ou coletivos (consumidores, empresários, trabalhadores, corporações, centrais sindicais, mídia, entidades do terceiro setor), envolvidos na solução de um determinado problema…” (Texto Base nº21). Se, por exemplo, no seu bairro falta um posto de saúde, este pode ser conseguido por meio de políticas públicas que envolvam todos os interessados daquele lugar. O que não podemos perder de vista é que as Políticas Públicas apenas são viáveis na compreensão dos cidadãos como partícipes e não como meros receptores de favores.

Em se tratando de tais políticas, todos somos corresponsáveis. O que está em questão não são interesses particulares, mas o bem de todos, e isto é uma exigência da nossa fé. Nesse sentido, a Campanha da Fraternidade está sempre interpelando a sociedade, pois dela, a Igreja participa. “É preciso superar a dualidade no campo da fé e da política porque, fraternidade e Políticas Públicas fazem parte da vocação humana e devem nortear as ações dos homens e das mulheres que na política defendem a dignidade humana” (Texto Base, nº 196).

Com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no documento nº50 que trata da Ética: Pessoa e Sociedade, perguntamos: “quem não se revolta com o descaso no atendimento aos usuários dos serviços públicos, a morosidade, a irresponsabilidade, o parasitismo, a falta de compaixão com o sofrimento dos pobres no INSS, nas escolas, hospitais, fóruns, delegacias e outros órgãos de atendimento ao grande público? As filas intermináveis de idosos e aposentados, doentes e outras categorias humildes são sinal mais claro da insensibilidade social e do descuido de muitos dos nossos servidores. Ora, os serviços públicos, para serem éticos hão de ter também essas qualidades: serem acessíveis, eficientes e rápidos. Mas para isso, além de uma adequada remuneração, é importante a formação permanente dos funcionários para o espírito público, para o ‘senso do serviço’ ao povo necessitado”. Essas situações, que afligem nossa sociedade com um todo, são questões de Políticas Públicas.

Como reza a Campanha da Fraternidade, cresça em nós a caridade sincera e o amor fraterno; a honestidade e o direito resplandeçam em nossa sociedade e sejamos verdadeiros cidadãos do novo céu e da nova terra.

Por Dom Sérgio Aparecido Colombo, Bispo Diocesano de Bragança Paulista e presidente da Comissão para a Liturgia

 

 

 

           

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