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Carne Vale

Diversas manifestações culturais compõem o Carnaval do Brasil. Brasil de Fato/Inaldo Menezes

A festa do Carnaval nasceu no quintal da Igreja. Na Idade Média, a sociedade ocidental era regida pelas leis e ritmo da liturgia católica. Não existia ainda no ocidente a “sociedade civil” como hoje a conhecemos. O cristianismo, que nesse momento coincidia com a Igreja Católica, conduzia a sociedade ocidental. Não havia leis trabalhistas como hoje e os acordos e relações de trabalho eram muito rudimentares. O cristianismo foi, ao longo dos séculos, com erros e acertos, civilizando a sociedade ocidental.

As pausas no trabalho, por exemplo, eram pautadas pelas inúmeras festas religiosas. O descanso dominical foi herdado do judaísmo (Sábado), assim como muitas outras celebrações cristãs. O que hoje chamamos feriado, eles chamavam dia santo.

As duas festas máximas eram e são até hoje para nós, católicos, a festa da Páscoa (Ressurreição de Jesus) e o Natal (Nascimento de Jesus). As festas maiores são precedidas por alguns dias de preparação e, em poucos casos, há dias de prolongamento da festa. O tempo de preparação pode ser de três dias (tríduo), sete dias (setenário), oito dias (oitavário), nove dias (novena ou novenário) e quarenta dias (quaresma). O prolongamento da festa é sempre de oito dias e, na liturgia moderna,  restaram somente a oitava da Páscoa e a oitava do Natal.

Os quarenta dias de preparação para a grande festa da Páscoa, a quaresma, exigiam muito jejum e total abstinência de carne. O início da quaresma é a Quarta-Feira de Cinzas. O Carnaval nasceu como uma preparação para os dias austeros e rigorosos da quaresma ou como uma despedida da “carne”. Portanto, pode a carne ou “carne vale” (Carnaval), porque, a partir da Quarta-Feira de Cinzas, por quarenta dias, a carne “não pode”.

Toda festa é um presente de Deus para os seus filhos. A festa, as férias, o descanso dominical, são necessários para termos uma vida saudável. A festa proporciona o justo descanso para o corpo e para a mente e estimula a fraternidade. A festa nos é dada por Deus para que nos tornemos melhores. Mas, se alguém sair de uma festa pior do que entrou, alguma coisa está errada.

Infelizmente, nós temos a triste capacidade de estragar as coisas boas que Deus criou e nos oferece continuamente. Alguns exemplos: conseguimos estragar a maravilhosa natureza que Ele nos deu (água, rios, mares, plantas, terra, ar, animais, etc.). Conseguimos com nosso egoísmo e maldade estragar os profundos e bonitos relacionamentos humanos (família, amizade, sexo) e geramos as inúteis e inúmeras formas de guerras e divisões, destruindo a fraternidade. Estragamos a maravilhosa inteligência que Deus nos deu para fazer o bem, usando-a para o mal.

Ficamos estarrecidos ao ver pessoas que receberam “de mão beijada” todas as oportunidades e benesses da vida e, literalmente, jogaram tudo no lixo, inclusive a si mesmas. Todos nós, de algum modo, também fazemos pequenos ou grandes estragos com as boas coisas que Deus nos dá. As religiões chamam esse “estrago” de pecado.

A festa faz parte da alma humana, pois foi criada por Deus. Aliás, em todas as religiões, a vida eterna – o Céu é sempre descrito como uma grande e infinita festa: a famosa festa no Céu. A nossa vida, nesse mundo, deveria ter sempre um sabor de festa. Os parênteses das tristezas e tragédias deveriam ser exceções, não a regra.

Conclusão: o Carnaval é coisa boa e festar faz bem. Todavia, cuidado para não estragar as coisas boas que Deus lhe dá. Só lhe desejo que, após o Carnaval, você não acorde na Quarta-Feira de Cinzas dizendo: “estou me sentindo um lixo”.

Dom Rubens Sevilha, OCD, bispo diocesano de Bauru

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