Clamor dos Excluídos

“Eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e me visitaram” (Mt 25,31-46). Neste trecho do Evangelho sobre o juízo final, Jesus apresenta a compaixão e a solidariedade como critérios fundamentais para sermos partícipes do seu Reino, ou seja, da plenitude da vida.

A fé cristã tem, portanto, sentido; além de traduzir-se em ações solidárias, ilumina nossa convivência social, inspirando-nos a superar exclusões. A Igreja incorpora, portanto, em sua missão, a responsabilidade de ajudar os setores excluídos da sociedade a expressarem seus clamores. Por isso, criou e continua incentivando o “Grito dos Excluídos”, uma manifestação popular que se realiza todos os anos no dia 7 de setembro, em contraposição ao Grito da Independência do Brasil, falsamente celebrada.

Hoje, nossa nação está submissa a novas formas de dependência e exploração. Grandes corporações econômicas, sobretudo internacionais, interferem em nossa vida política, corrompendo gestores públicos para conseguirem medidas governamentais que lhes permitem expropriar nossos recursos. Essa elite econômica e política sustenta uma democracia de fachada, pois lesa a classe trabalhadora, negando-lhe direitos, o que justifica o lema do “Grito dos Excluídos” deste ano: “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pronunciou-se, por meio de sua presidência, a respeito do “Grito dos Excluídos”, no último dia 31 de agosto, dizendo que ele “nasceu com o objetivo de responder aos desafios levantados por ocasião da 2ª Semana Social Brasileira, realizada em 1994”, e aprofundar a temática da exclusão social tratada pela Campanha da Fraternidade em 1995.

Segundo a CNBB, “o Grito, realizado no dia 7 de setembro, com suas várias modalidades, é construído com a participação das comunidades cristãs, movimentos, pastorais sociais e organizações da sociedade civil”. Para a Igreja, “a sociedade brasileira está cada vez mais perplexa, diante da profunda crise ética que tem levado a decisões políticas e econômicas que, tomadas sem a participação da sociedade, implicam em perda de direitos, agravam situações de exclusão e penalizam o povo brasileiro pobre”.

A CNBB, “diante do grave e prolongado momento triste vivido no país”, além de incentivar o “Jejum e a Oração pelo Brasil”, encoraja mais uma vez, as pessoas de boa vontade, particularmente em nossas comunidades, a se mobilizarem pacificamente na defesa da dignidade e dos direitos do povo brasileiro, propondo “a vida em primeiro lugar”, suplicando finalmente a intercessão de Nossa Senhora Aparecida.

O próprio Santuário Nacional de Aparecida incorporou o “Grito dos Excluídos” em sua programação anual, acolhendo concomitantemente essa manifestação e a Romaria dos Trabalhadores, nas quais uma multidão de todo o Brasil, congregada também em uma celebração eucarística, expressa seus clamores a Deus diante de sua realidade sofrida e assume compromissos para transformá-la.

Que este “Grito” continue se espalhando pelo Brasil, pelo continente e pelo mundo, contando com o louvável incentivo da Igreja, especialmente do Papa Francisco, defensor de importantes reivindicações da classe trabalhadora, exemplo de compaixão e solidariedade.

Jales, 06 de setembro de 2017.

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

 

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