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Crise de humanidade: que fazer?

Diante do que presenciamos todos os dias em termos de violência e desprezo com a vida humana e a natureza, nos perguntamos o que está acontecendo? São muitas as análises e respostas. Eu fico com a opinião do Papa Francisco que constata estarmos vivendo uma crise antropológica, ou seja, de humanidade: “A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano”. (Papa Francisco in Evangelii Gaudium  n. 55).

Tudo isto fica visível nos sinais desta crise: o ser humano reduzido a uma só de suas necessidades: consumo. Autonomia do mercado e especulação financeira. Luta pelo poder. Corrupção. Rejeição da ética, porque relativiza o dinheiro. Recusa de Deus, porque a fé Nele leva o ser humano a responder com a preservação da vida e da criação, o que não interessa ao “mercado”. Para o mercado, Deus é incontrolável e não manipulável, pois coloca o ser humano como centro da criação.

Diz um teólogo: “A crise que vivemos hoje não é somente uma crise econômica é uma crise de humanidade: o sistema que dirige hoje a marcha do mundo é objetivamente inhumano.” (José A. Pagola). A razão acabou sendo sequestrada: não se pergunta pelos fins, não se fala do sentido que tem a história da humanidade, nem qual o lugar do ser humano na Terra. Como cortar pela raiz o mal profundo que não é outro senão a tirania imposta pelos poderes financeiros à comunidade mundial?

Jesus responde. O impacto da mensagem de Jesus: Boa nova do Reinado de Deus: Deus já está aqui com sua força criadora de justiça (amor, serviço, solidariedade, partilha, fraternidade, paz…), tratando de abrir caminho entre nós, para humanizar a história. O mundo novo querido por Deus vai além dos impérios e ideologias, religiões e estruturas. Ele começa aqui e avança por toda a eternidade…

Jesus no seu Evangelho traz um novo paradigma para confrontar-nos com a história humana: o Reinado do Pai. Um marco para construir um mundo mais justo, digno e feliz, a partir da confiança total em Deus e da responsabilidade para com a Criação e a preservação da vida.

Com Jesus começa um tempo novo. Deus não quer deixar-nos sós diante de nossos conflitos, sofrimentos e desafios. Quer construir conosco e a nosso lado uma vida mais humana e digna para todos.

O dinheiro se converteu em nosso mundo em um ídolo que exige cada vez mais vítimas e desumaniza aqueles que lhe rendem culto. Deus não pode ser pai de todos de verdade, sem reclamar justiça para seus filhos que sofrem e são excluídos de uma vida digna. Não se pode servir a Deus e ao dinheiro (Lc 16,13). O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (1Tm 6,10). O poder irracional do dinheiro sacrifica vidas que precisam ser defendidas.

Chegou o momento em que devemos recuperar a compaixão/ misericórdia como herança decisiva que Jesus deixou para a humanidade. O que fazer? Temos de recuperar a importância do bem comum, a responsabilidade do cuidado de uns com os outros, a defesa da família como lugar por excelência de relações gratuitas, defender a comunidade cristã como espaço de acolhimento e de mútuo apoio amistoso e fraterno… Enfim, defender a vida.

A última palavra sobre a história humana pertence a Deus e Ele já a pronunciou em Jesus: quem vencerá não é a violência (morte), mas a compaixão solidária (vida).

Artigo escrito por Dom Pedro Carlos Cipollini, bispo de Santo André

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