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Crise na Igreja

Sou otimista por opção e, além disso, como cristão luto para alimentar a esperança, que é uma das três virtudes teologais que recebemos no batismo, junto com a fé e o amor cristão. Muitos católicos ficam tristes e preocupados com a crise da Igreja, mas, como a Igreja é conduzida por Deus e formada de homens e mulheres, ela é uma crise de crescimento. Em grego, krisis, significa a decisão tomada por um juiz ou um médico. O juiz pesa e sopesa os prós e os contras e o médico conjuga os vários sintomas; então, ambos tomam a decisão pelo tipo de sentença ou pelo tipo de doença. Esse processo decisório é chamado crise.

Não somente a Igreja, mas, tudo hoje está em crise (em transformação!): a família, a política, a economia, a arte, as religiões, os costumes, etc. Daí a constatação que estamos vivendo uma mudança de época e não, simplesmente, uma época de mudanças. Cabe às ciências humanas estudar e explicar as causas e possíveis consequências desse terremoto epocal. Cabe a nós, crentes, entender e explicitar os sinais de Deus no tempo que estamos vivendo.

O Papa Francisco, em uma das suas homilias diárias na Capela Santa Marta (12/11/2018) disse que “a Igreja jamais nasceu completamente ordenada, com tudo certo, sem problemas, sem confusão, jamais! Sempre nasceu assim. E esta confusão, esta desordem, deve ser organizada. É verdade, porque as coisas devem ser colocadas no lugar; pensemos, por exemplo, no primeiro Concílio de Jerusalém: havia a luta entre os judaizantes e os não judaizantes. Mas pensemos bem: fazem o concílio e colocam as coisas no lugar”. O Papa se refere a um dos maiores conflitos do início do cristianismo com a entrada dos pagãos, através da pregação do apóstolo Paulo. Até então os primeiros cristãos eram todos judeus convertidos e não sabiam como lidar com os novatos pagãos que se convertiam ao cristianismo e tinham costumes totalmente diferentes dos judeus.

São Pedro de um lado e São Paulo do outro polarizaram o problema, chegando ao ponto de São Paulo repreender, com razão, o “chefe” São Pedro por estar agindo com fingimento: “Quando Cefas (São Pedro) chegou a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, porque ele merecia repreensão. De fato, antes de chegarem alguns da parte de Tiago (judeus), ele comia com os gentios (pagãos). Porém, depois que chegaram aqueles de Tiago, ele evitava os gentios e se afastava com medo dos judeus. E muitos caíram no mesmo fingimento de Cefas, a tal ponto que até Barnabé se deixou levar pelo fingimento deles” (Gálatas 2, 11-13).

Depois de dois mil anos de cristianismo ainda nos entristecemos com os inevitáveis erros na Igreja, próprios da condição humana. A parte humana, institucional e histórica da Igreja será sempre melhorada e reformada. A parte divina da Igreja, corpo místico de Cristo, é santa e imutável.

As reformas do Concílio Vaticano II (1965) agora impulsionadas pelo Papa Francisco querem que a santidade da Igreja transpareça cada vez mais. A mundanidade, pelo contrário, ofusca e torna opaco o brilho da luz de Deus na Igreja. É preciso continuamente limpar e polir o tesouro espiritual da Igreja que, com o tempo, vai naturalmente ficando manchado e coberto pela poeira do nosso pecado. Os pecados são os mesmos de sempre e de todo o resto da humanidade: dinheiro, poder e prazer. Na realidade os pecados são somente dois: poder e prazer. O dinheiro entra como instrumento para comprar o poder e o prazer, ou dar a prazerosa sensação de segurança e de poder que a riqueza ilusoriamente proporciona. Mas, de fato, o único pecado original é o orgulho, que faz o nosso eu competir com Deus. A mistura diabólica de muito dinheiro, muito poder e muito prazer provoca um fortíssimo delírio de onipotência onde a pessoa sente-se um semideus e, em alguns casos, se sente deus ou até mais que deus. Loucura total.
A Igreja deve ser exemplo de humanidade ou santidade que são, fundamentalmente, a mesma coisa. Por isso, a Igreja é escola de comunhão, de humildade, de paz, de amor e fé. Jesus é o nosso mestre e modelo de ser humano: pouco dinheiro, pouco poder, pouco prazer e, paradoxalmente, nos oferece uma felicidade infinita na eternidade, mas, que começa agora já nesse mundo. Seja feliz!

Por Dom Sevilha, OCD, bispo de Bauru

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