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Eleições 2018 – hora da decisão e da esperança

“Continuemos a afirmar nossa esperança, sem esmorecer” (Hb 10,23).

Com esta frase tirada da Carta aos Hebreus, os Bispos do Brasil, na última Assembleia Geral da CNBB (Aparecida – SP, 10 a 20 de abril deste ano), iniciam a Mensagem dirigida ao povo brasileiro sobre as eleições que se aproximam. Em breve, seremos chamados a escolher o Presidente da República, Governadores, Senadores, Deputados Federais e Deputados Estaduais, os futuros servidores da Pátria.

Talvez nunca na história recente do Brasil estas eleições tenham sido tão decisivas para a construção de um novo país. Todos haverão de concordar que vivemos um momento de uma grave crise social, política, cultural e econômica, agravada pela falta de credibilidade do poder político e pela ininterrupta corrupção de inúmeros políticos. O sistema democrático atual ficou deformado, pois vêm sendo negados ou diminuídos os princípios básicos para o verdadeiro “Estado de Direito”, como: os valores éticos e morais, o respeito mútuo, a primazia do diálogo, a tolerância e o sentido da corresponsabilidade. Criaram-se assim uma enorme desconfiança e falta de credibilidade na política e respectiva classe. Além disto, cresceu o relativismo ético a partir de uma visão puramente individualista e autorreferencial, segundo a qual cada um se torna dom absoluto do seu pensar e do seu agir, negando ou enfraquecendo a “lei natural” e objetiva, inscrita no coração humano (cf. Rm 2,15), decorrente dos direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa humana. Neste sentido, assistimos recentemente, às vezes de forma passiva e inerte, a atentados contra o sentido integral da vida humana, a ser protegida desde seu início no seio maternal até o seu ocaso natural, como também a um ataque desenfreado contra a família, a célula da sociedade. Enfim, a sociedade tornou-se mais violenta e socialmente excludente, particularmente aos mais indefesos e vulneráveis.

Queridos irmãos diocesanos: para nós, cristãos e cristãs, o Evangelho, fonte inspiradora da Doutrina Social da Igreja, deve ser o critério a partir do qual queremos pensar a política. Nossa fé nos faz olhar para Jesus Cristo, o Verbo Encarnado de Deus, que assumiu, na sua carne, tudo o que é verdadeiramente humano; pois Ele veio instaurar o Reino para que todos tenham “vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Por isso, com o coração de pastor, desejo propor-lhes três princípios que possam ajudar-nos a fazer das próximas eleições momento de decisão e de esperança.

  1. É preciso acreditar no valor insubstituível da política e na capacidade dos bons políticos. Tenhamos plena certeza de que a política é um bem para todos, pois é ela que regulamenta e disciplina as relações justas e fraternas entre pessoas e grupos para a realização do bem comum. Nos regimes democráticos, a política é o único instrumento para a construção de uma sociedade justa e solidária que todos nós almejamos. O Papa Paulo VI dizia que a política é a forma mais perfeita do exercício da caridade.
  2. É preciso valorizar o voto. O voto não é uma simples obrigação, mas um dever a ser exercido de forma livre e consciente. É grave omissão dizer: “Estou desacreditado dos políticos. Por isso, vou votar nulo ou em branco”. Não é verdade que o voto em branco, o voto nulo e as abstenções invalidam as eleições. Tenhamos muito cuidado com as falsas notícias, os fake news, postados nas redes sociais e que causam graves prejuízos à democracia, pois fazem proliferar notícias falsas e inverídicas. Não vendamos o voto por nada, trocando-o por algum favor ou promessa pessoal.
  3. É preciso escolher cada candidato com discernimento e retidão. Sejamos criteriosos na escolha dos candidatos para os vários cargos eletivos, não apenas aqueles do Poder Executivo, como Presidente e Governadores, mas também os candidatos ao Legislativo em âmbito federal e estadual. A atuação destes organismos tem um papel fundamental na elaboração das leis, na aprovação das políticas públicas e na superação dos problemas sociais.

Quais os candidatos a escolher? Como tenho afirmado outras vezes, a Igreja, como instituição, não pode apontar um determinado partido ou candidato. Mas ela precisa incentivar, apoiar e acompanhar os cristãos leigos e leigas a assumirem esta missão tão nobre, predominantemente neste Ano Nacional do Laicato.

Portanto, antes de votar, seria importante pedir a luz do Espírito Santo para fazer uma boa escolha. Examinemos o candidato, seus projetos, o partido político ao qual pertence. Não bastam promessas ou discursos genéricos ou alguém que defenda apenas o interesse de um grupo ou partido, sem promover políticas que beneficiem a todos.

Eis algumas “dicas” que poderiam ajudar no perfil do candidato a ser votado:

− qual a sua vida e sua trajetória pessoal e política;

− qualidades humanas: honestidade; transparência; sabe trabalhar em conjunto; capacidade de liderança; idoneidade moral; acredita no diálogo em busca de consenso;

− defensor da vida e da dignidade humana em toda e qualquer circunstância;

− defensor de projetos concretos para uma vida melhor para todos, priorizando a educação, a saúde, o emprego, a moradia e a segurança;

− sensível à situação do povo, especialmente dos indefesos e mais necessitados;

− respeita as várias culturas e religiões;

− comprometido com o meio ambiente.

O Papa Francisco resumiu tão bem as qualidades que se espera de um bom político: “É claro que há necessidade de dirigentes políticos que vivam com paixão o seu serviço aos povos, (…) solidários com os seus sofrimentos e esperanças; políticos que anteponham o bem comum aos seus interesses privados, que não se deixem intimidar pelos grandes poderes financeiros e midiáticos, que sejam competentes e pacientes face a problemas complexos, que sejam abertos a ouvir e a aprender no diálogo democrático, que conjuguem a busca da justiça com a misericórdia e a reconciliação” (Mensagem vídeo do Papa Francisco aos participantes no encontro de políticos católicos organizado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano [CELAM] e pela Pontifícia Comissão para a América Latina [CAL] − 03/12/2017).

E mais uma dica importante: após as eleições faz-se necessário nosso interesse pela política, participando dos Conselhos municipais, das reuniões da Câmara Municipal e acompanhando as discussões e votações no Senado, na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. A participação de organismos como o Conselho Diocesanos dos Leigos (CDL) e da Pastoral Fé e Política poderão contribuir muito na formação contínua da consciência política.

Queridos irmãos diocesanos: “A esperança não decepciona” (Rm 5,5). Diante da atual situação política brasileira, não devemos desanimar, mas com fé e esperança, fazer florescer o desejo de construir um novo Brasil, participando no fortalecimento da democracia pela votação que faremos nas próximas eleições. Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, nos ajude nesta nobre e tão desafiadora missão.

E a todos abençoo.

 

Por Dom Vicente Costa

Palavra do Presidente

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