Em memória de Jesus Cristo

Com o rito da bênção e procissão dos ramos, iniciamos a celebração da Páscoa deste ano. Depois do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, seguem as celebrações da Liturgia, acompanhando os últimos dias da vida de Jesus Cristo na terra, sobretudo os acontecimentos da ceia de despedida dos apóstolos, e sua prisão e julgamento iníquo, as torturas que lhe foram infligidas, sua morte na cruz, o sepultamento, a ressurreição gloriosa e as aparições aos discípulos.

Segundo os estudiosos dos Evangelhos, a recordação e representação ritual dos fatos da Paixão e ressurreição do Senhor constituíram o primeiro núcleo escrito dos Evangelhos. No início do Cristianismo, os cristãos recordavam esses acontecimentos, ano após ano, não apenas para lembrar fatos que ficaram impregnados na memória dos apóstolos e demais discípulos de Jesus. Esse “fazer a memória de Jesus Cristo” tinha a finalidade litúrgica da glorificação de Deus pela vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo e para invocar os frutos dessa obra sobre os fiéis.

Mas também havia a finalidade evangelizadora de anunciar a todos, também aos que não criam ainda, o nome de Jesus Cristo Salvador e sua obra em favor da humanidade. A recordação e proclamação dos acontecimentos pascais, de fato, recolhia o núcleo central do querigma, o primeiro anúncio do Evangelho: Jesus Cristo, Filho de Deus, viveu como homem bem conhecido no meio dos homens; Ele é o justo e santo, enviado por Deus ao mundo; inocente, ele foi condenado e posto à morte por mãos iníquas, entregou sua vida na cruz por nossos pecados, perdoou aos que o condenaram e mataram; foi ressuscitado por Deus, mostrando-se vivo aos apóstolos e a muitos outros. Após ter passado pelos sofrimentos da Paixão, Ele agora está na glória de Deus. E proclamavam: Ele é o Filho de Deus Salvador, enviado por Deus para salvar os homens! Quem crer nele e aceitar a Boa Nova tem a salvação e a remissão dos seus pecados por meio dele.

Na Semana Santa, especialmente no Tríduo Pascal, é isso mesmo que nós também fazemos. Não se trata de mera encenação teatral, ou de culto apenas interior, mas de anúncio e proclamação pública da nossa fé em Jesus Cristo Salvador. Realizamos, de maneira mais estendida e detalhada, aquilo que se realiza em cada celebração da Missa: “anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição!” E fazemos o que Jesus ordenou na última ceia, ao instituir a Eucaristia: “fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).

A memória de Jesus Cristo Salvador, de sua Paixão redentora e ressurreição gloriosa, não deve desaparecer nunca mais. Nesses eventos salvadores, manifestou-se de uma vez para sempre o amor extremo de Deus pela humanidade: “tanto Deus amou o mundo que lhe entregou seu Filho unigênito, para que, todo aquele que nele crer, não pereça, mas tenha a vida” (Jo 3,16). Recordamos que Jesus Cristo nos amou “até o fim” (cf Jo 13,11), ou seja, até às últimas possibilidades e consequências. O justo não hesitou morrer pelos injustos; o santo entregou sua vida pelos pecadores para que todos recebessem o perdão de Deus e pudessem viver: “eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (cf Jo 10,10). Por isso, a Igreja proclama: “por sua morte, temos vida; na sua cruz e ressurreição, Ele perdoou nossos pecados e nos abriu as portas da eternidade.

Recordamos tudo isso, não simplesmente para exercitar a memória, mas para proclamar e reconhecer na fé a obra de Deus em nosso favor, por meio de Jesus Cristo Salvador. Fazemos memória e recordamos com a finalidade de reconhecer que foi por todos e cada um de nós que Jesus Cristo o fez. São Paulo tem a palavra certa para essa atitude de arrependimento e reconhecimento a Cristo: “Ele me amou e por mim se entregou na cruz! Agora, o meu viver é Cristo!” (cf Gl 2,20). A maior prova do amor de Deus por nós é que Ele enviou seu Filho para salvar-nos quando éramos ainda pecadores! Quanto mais nos ama agora, quando já o conhecemos, temos fé e tentamos corresponder sinceramente ao seu amor (cf Rm 5,6-11).

Não é sem motivo que as celebrações da Semana Santa se concluem, na solene vigília pascal do Sábado Santo, com a renovação das promessas do Batismo e da profissão de fé. A participação nos ritos e comemorações nos deve envolver: ainda hoje, nós fazemos a memória da Paixão e ressurreição de Jesus e dizemos: “ele me amou e por mim se entregou na cruz!” E retomamos com renovada disposição a nossa adesão de fé a Deus e a Jesus Cristo Salvador, prometendo: renuncio ao pecado e a tudo o que é obra do maligno; quero viver vida nova, coerente com a graça da redenção recebida no Batismo. Creio, creio!

Vivamos bem a Semana Santa, em memória de Jesus Cristo Salvador – “in meam commemorationem”!

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo metropolitano de São Paulo

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO – Edição 3146 – De 12 a 18 de abril de 2017

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