Fórum pela paz na Coreia

De 3 a 7 de novembro, participei do Fórum Internacional pela paz na Península Coreana, promovido pela arquidiocese de Seul. O comitê organizador do evento, integrado por personalidades da Igreja coreana, estudiosos e personalidades públicas, promove diversas iniciativas ao longo do ano, tendo em vista a superação da divisão e a efetiva reconciliação do povo coreano, uma vez superada a atual divisão.

Por parte do governo da Coreia do Sul existe um Ministério voltado para a causa da reunificação e da superação do conflito, cujas raízes remontam ao início do século XX. De fato, em 1910, a península da Coreia foi invadida e ocupada pelo Japão, que lhe impôs um rígido domínio colonial. Além de destruir de modo violento a monarquia coreana, as tropas ocupadoras também promoveram uma pesada reforma cultural e social, com a qual pretendiam minar e mesmo destruir a identidade nacional coreana.

Depois que duas bombas atômicas destruíram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, no final da segunda guerra mundial, em 1945, as tropas japonesas desocuparam a Coreia às pressas, deixando para trás um país arrasado e uma sociedade incapaz de se governar, o que a fez mergulhar bem depressa no caos social e político e na guerra civil. O Norte, com maior influência da Rússia e da China, foi varrido pela revolução marxista; o Sul ficou sob a influência Norte-Americana. A guerra civil só terminou em 1957, quando a ONU interveio para resolver o conflito, dividindo o país em dois: o Norte, onde dominava a revolução marxista, passou a ser um país comunista fechado, sob a influência de Moscou e de Pequim; o Sul assumiu um regime mais democrático, capitalista e ocidentalizado.

A relação entre as duas Coreias nunca foi boa e carrega feridas profundas, que não se expressam apenas em regimes sociais e políticos antagônicos, mas numa divisão que atingiu a alma e a identidade do povo coreano, que sempre foi um só povo, por milênios, embora houvesse feudos e reinos em luta entre si. A divisão política atual representa o isolamento de uma parte do mesmo povo, obrigado a viver em tensão constante. A divisão alcança famílias, que possuem membros de um lado e de outro da fronteira, e não podem visitar-se e ter comunicação entre elas. No Norte, toda comunicação é controlada e cerceada e não existe liberdade de informação, nem de manifestação das ideias. Somente existe versão oficial dos fatos e da informação: aquela do regime.

A Coreia do Sul investiu maciçamente na educação e no desenvolvimento social e econômico e hoje é um país rico e industrializado, com tecnologias de ponta, tendo um alto índice de desenvolvimento social. A Coreia do Norte vive um sistema socialista fechado, com uma população sem liberdade e empobrecida. O Norte faz demonstrações de força bélica, provocando tensões também com outros países, como o Japão e os Estados Unidos. Não estão fora da área de interesse das tensões a China e a Rússia; isso significaria que um novo conflito armado naquela região poderia tornar-se muito perigoso para a paz mundial.

O povo da Coreia do Sul vive o seu dia a dia de trabalho e busca do bem-estar, sem dar grande importância às provocações que vêm do Norte, pois as interpreta como estratégia para ganhar espaço e relevância na mesa de eventuais negociações. Contudo, há profundos ressentimentos em relação à opressão sofrida no passado e à eventualidade de uma guerra nuclear, que poderia aniquilar a península inteira e mais ainda. De fato, o país é pequeno e densamente povoado. Seul, com uma população de cerca de 8 milhões de habitantes, está a menos de 50 quilômetros da fronteira e os principais centros urbanos e industriais podem ser alcançados em poucos minutos por eventuais mísseis disparados do Norte. Embora conte com significativa presença de forças Norte-Americanas, o Sul não investiu em poderio militar da mesma forma.

Há, pois, fortes motivos para que a Igreja na Coreia do Sul se preocupe com a reconciliação e a paz entre as duas Coreias. Ela procura fomentar um clima propício à paz e à reconciliação, mesmo sabendo que cerca de 15% da população é contrária à reunificação. Porém, a missão da Igreja é anunciar o Evangelho da paz e da reconciliação, abater muros e estabelecer pontes para o diálogo e o encontro. Por isso, além de envolver intelectuais, formadores da opinião pública e personalidades da cultura, a iniciativa também está voltada para o povo, de maneira a preparar um campo propício para o florescimento da paz no país.
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Artigo publicado no jornal “O SÃO PAULO”, edição 08/11/2017

 

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