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Jogar solidariamente

O vazio das ruas na hora de um jogo da seleção sugere reflexões. A ansiedade por vitórias, mesmo simbólicas, dá o que pensar. Por que o ser humano se excita tanto com competições? Por que uma nação inteira se torna histérica com a vitória de sua seleção, sabendo que isso não agrega nada à qualidade da vida social. Ao contrário, alimenta seu sentimento de superioridade.

A que serve a vanglória? A cultura competitiva é, realmente, benéfica? O ser humano se torna feliz aplacando outros ou colaborando-se? Por que os jogos cooperativos são tão pouco tomados em conta, até mesmo nas escolas, onde, supostamente se ensinam valores? Por que os meios de comunicação não lhes dão importância e difundem tanto o esporte competitivo?

A resposta é óbvia. A sociedade capitalista se move pela competição. Nela, o poder é objeto de luta. Muitos ambicionam o poder do Estado e se perpetuarem nele, mesmo sem legitimidade e credibilidade popular. As empresas traçam estratégias para influenciarem igualmente o Estado, abocanharem recursos destinados ao bem público e tornarem-se hegemônicas no mercado. As nações também defendem seus interesses em detrimento das demais.

Dessa forma, não se constrói um projeto comum de sociedade. Rejeita-se a contribuição dos cidadãos, de suas associações e instituições sociais. Os grupos economicamente influentes se impõem. O Estado se submete à forma desses grupos jogarem. Cada um defende a si próprio, contra os demais. Associam-se, no entanto, na defesa de seus interesses corporativos. Até o mundo religioso é influenciado por essa lógica competitiva.

O ensinamento de Cristo a esse respeito é iluminador. Ele exortou seus discípulos a não reproduzirem relações de dominação existentes na sociedade: “Sabeis que os governadores das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mt 20,24-27).

O Papa Leão XIII, em sua Encíclica Rerum Novarum (Coisas Novas), de 1891, deu início à crítica da Igreja, sempre atual, sobre o modelo societário competitivo, afirmando que “os princípios e o sentimento religiosos desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada”.

O que dizer, então, do esporte? Ele é saudável, se praticado de forma cooperativa e lúdica. Sendo, no entanto, extremamente competitivo e mercantil, dá fluidez ideológica à engrenagem do sistema capitalista e nutre a cultura da supremacia de uns sobre os outros, favorável aos mais fortes. O que ganhamos, então, com vitórias em competições?

Existiria outro tipo de alegria que valha muito mais a pena? Com certeza: a alegria de entrarmos nos campos reais da vida; jogarmos no time da classe trabalhadora; driblarmos o desemprego, o salário baixo e as condições precárias de vida; darmos um olé nos que governam para as elites; marcarmos gols a favor dos socialmente excluídos; e vencermos nosso próprio sentimento de povo derrotado.

Que tal, então, em lugar de torcermos histericamente por uma taça simbólica, que alimenta arrogância, acordarmos, enxergarmos e entendermos os desafios de nosso momento político? Ele é oportuno para retirarmos de campo os que fazem gol contra, mudarmos as regras do jogo, e podermos, enfim, “jogar solidariamente”, com garra, arte e alegria, em favor do bem comum.

Jales, 05 de julho de 2018.

Por Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

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