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O Sínodo dos Jovens foi uma experiência de muito aprendizado. Entrevista especial com Lucas Galhardo

Lucas Galhardo na Sala do Sínodo. Foto: Vatican.News

Encontros com o Papa, trabalhos com especialistas de muitos países, dias de cenáculo no coração da Igreja…, Lucas Galhardo, da Pastoral Juvenil da CNBB, e também da Juventude Masculina de Schoenstatt, concedeu entrevista à Agência de notícias de Schoenstatt e nos conta como foi ser auditor do Sínodo dos Bispos sobre a juventude, em Roma:

Em sua visão, qual o principal marco deste Sínodo? O que ficará gravado para você?

O principal marco, para mim, é a sinodalidade. “Sínodo” vem do grego e significa, literalmente, “caminhar juntos”. Sinodalidade é esse espírito de caminhar juntos. Por mais que possa parecer um elemento intrínseco de todos os Sínodos, este, sobre os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional, trouxe um sabor especial para o termo. A sinodalidade foi vivida intensamente não apenas durante o encontro, mas também durante todo o processo preparatório. O esforço do Papa Francisco, e da Secretaria responsável, em procurar fazer um Sínodo mais participativo e inclusivo é demonstrado através das duas iniciativas inéditas durante o processo de consulta: o questionário on-line e a reunião pré-sinodal – e, também, pela participação ativa que nós, como auditores, tivemos.

Em vários momentos o Papa Francisco esteve junto aos participantes, inclusive nos “bastidores”. Você teve a chance de conversar com ele, representando todos os brasileiros e toda a juventude latino-americana. Como foram esses encontros com o Santo Padre?

Realmente, o Papa Francisco esteve presente em todos os momentos na Sala do Sínodo, com exceção apenas das quartas-feiras pela manhã, devido às audiências gerais. Ele transmitiu um verdadeiro exemplo de escuta, pois esteve ouvindo atentamente durante o Sínodo, fazendo suas anotações e falou apenas no início, no final e uma única vez durante o Sínodo, quando transmitiu rapidamente as três coisas que mais o haviam tocado durante aquele dia de intensa escuta.

Meus encontros com ele não foram muitos. Nos encontramos pela primeira vez no segundo dia, nos cruzamos pelo corredor, a caminho da Sala Paulo VI, e apenas nos cumprimentamos. Estava com a camiseta da JMJ do Rio este dia e creio que ajudou um pouco, porque logo ele identificou e abriu um sorriso. Nos primeiros dias ele esteve presente conosco nos intervalos também, até tomou chimarrão um dia junto com os jovens, hehe.

Depois tive dois encontros que foram bem especiais… O primeiro foi dia 11 de outubro. Nesse dia estive à procura de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida para acompanhar os trabalhos no nosso grupo de língua portuguesa no dia seguinte, dia 12 de outubro. Ao final do dia, enviaríamos um vídeo aos brasileiros com a imagem. Durante o almoço, consegui a imagem emprestada com o Pe. Alexandre [Awi], é a imagem que fica sobre a mesa de trabalho dele. Como retornei do almoço direto para o Sínodo, tivemos a companhia de Nossa Senhora naquele dia a tarde. Um breve intervalo de 15 minutos acontecia no meio dos trabalhos à tarde. Nesse momento, fui ao encontro de Dom Vilsom Basso para partilhar que havia conseguido uma imagem de Nossa Senhora Aparecida para os trabalhos do dia seguinte e, enquanto estávamos conversando, já com a sala do Sínodo quase vazia, pois quase todos já haviam saído para o intervalo, Papa Francisco retorna à sala para deixar algo em sua mesa. Então Dom Vilsom me incentiva a ir ao encontro do Papa e pedir uma benção com a imagem. Fiquei um pouco sem jeito de ir, mas depois da insistência, corri ao encontro do Papa Francisco com a imagem nas mãos e pedi, sutilmente, se poderia enviar uma mensagem aos brasileiros, devido à celebração de Nossa Senhora Aparecida no dia seguinte. Pronto ele abriu um sorriso e disse que sim, enviou uma mensagem curta, mas muito profunda, de alguém que conhece a história e tem uma intimidade com Nossa Senhora Aparecida: “Que cada um de vocês a encontre em seu coração, assim como os pescadores a encontraram no rio. Busquem nas águas de seus corações e a encontrarão, porque Ela é Mãe”. Esse acontecimento foi algo totalmente espontâneo, não havíamos planejado este vídeo e esta mensagem.

O outro momento especial foi quando nos reunimos como bispos e jovens latino-americanos e entregamos ao Papa a Cruz da Pastoral Juvenil Latino-americana. É um símbolo que nos une como continente e que tem muito significado na vida de todos que participam, ou já participaram, desse processo pastoral. Temos o privilégio de, através do Celam, termos esta articulação entre os países da América Latina e Caribe. Nesse momento pude falar ao Papa em nome dos jovens latinos, transmitindo que estamos com ele e rezamos por ele.

Como foi estar com jovens, especialistas, bispos de tantos países? O que pode nos contar sobre suas experiências?

Nós, auditores, sentávamos nas fileiras superiores de uma das três partes da Sala Paulo VI. De lá de cima eu olhava para baixo e via o Papa Francisco, vários cardeais e muitos bispos. Na outra extremidade da sala estavam outros padres sinodais que não eram bispos (como o Pe. Alexandre) e os especialistas. Por alguns dias, que me deparava observando, essas pessoas eu pensava “O que estou fazendo aqui?”, rsrs, no meio de tantas pessoas tão engajadas e conhecedoras da Igreja e atividades pastorais, de especialistas de várias partes do mundo, tantas pessoas que são extremamente disputadas no dia a dia, etc., e nós auditores, hehe… Ainda não caiu toda a ficha para ser sincero, estou digerindo aos poucos, mas foi uma grande honra poder estar junto dessas pessoas, escutá-los, falar a eles e, principalmente, trabalhar juntos. Realmente, neste Sínodo sentimos muito esse espírito de família, de caminhar juntos e esse espírito de vivência de unidade. Foi uma experiência de muito aprendizado.

Há alguma contribuição característica de Schoenstatt no documento final?

Ainda não estou com total domínio do documento final para responder com propriedade esta pergunta. Mas, em todos os eventos que venho participando, eu sempre saio convencido de que a espiritualidade de Schoenstatt é realmente muito rica e tem muito a contribuir com todos. Elementos como os meios ascéticos de Schoenstatt, a maneira que trabalhamos o acompanhamento no Movimento, os altos ideias que Schoenstatt nos inspira a viver, etc., são algumas das potencialidades que temos como Movimento e que nos ajudam a enfrentar os desafios da vida diária em cada realidade.

Que ações concretas a juventude pode esperar a partir desse encontro sinodal?

Sinceramente não sei dizer ainda, porque isso depende muito de cada realidade local e dos próximos passos do Papa. Até agora temos o documento final do Sínodo e também todos os documentos gerados ao longo do processo preparatório, como o documento da reunião pré-sinodal – o qual recomendo muito a leitura, para ter um contexto global da realidade juvenil pela voz dos jovens. O Sínodo é um instrumento de consulta do Papa, então o documento final tem, como primeiro destinatário, o Santo Padre, e ele tem a autoridade para escolher o que fazer posteriormente. Ele nos incentivou a ler e trabalhar este documento, que é muito rico em minha opinião. Mas eu fortemente acredito que, mais do que o documento, a grande riqueza que esse Sínodo nos deixa é o exemplo da caminhar juntos e é isso que devemos procurar viver e praticar nas nossas realidades locais.

 

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