As Gabrielenses: Narradoras de dores e sonhos

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Eu conheci São Gabriel da Cachoeira por lábios femininos. Foram as protagonistas dos dramas destas terras que me contaram a história. Conheci-a através das confissões, das partilhas, dos funerais.

Foram mulheres de todas as idades que narraram essa história, mas todas elas eram como meninas: assustadas pela violência e sonhadoras por dias melhores.

A maioria delas conhece o sexo, mas não o afeto. Antes mesmo de descobrirem seus corpos, descobriram a intimidade de um outro corpo, em muitos casos, de um corpo familiar, pesando sobre o seu, esmagando sua alma, roubando sua dignidade, fedendo a cachaça e sujando seus pueris ouvidos de palavras de baixo calão.

Algumas histórias não ouvi. Eu vi! Mães e esposas expulsas de dentro do próprio lar para não apanhar de um filho ou marido bêbado, expostas ao sol ou à lua, com crianças pequenas, à espera do efeito colateral do álcool passar. Já nem sei se estão mais seguras dentro de casa ou fora dela.

São tantas as histórias… Um rosário de dores, contadas e recontadas entre lágrimas, rancores e medos, por lábios trêmulos pelo choro e travados para o sorriso.

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São mulheres que caminham pelas ruas, um passo atrás de seus maridos, como se fossem sombras deles. Eu achava que era por pura submissão até conhecer suas almas… Mas não, elas caminham um passo atrás porque são elas que os socorrem em suas quedas e os amparam quando o vício torna trôpegos os seus pés.

Nascer mulher em São Gabriel não é um castigo. É um privilégio concedido às almas fortes, que Deus bem conhece em suas profundezas.

Uma das cenas que mais me falou ao coração aconteceu na Sexta-feira da Paixão, quando eu subia o Morro da Boa Esperança, acompanhando os passos da Via Dolorosa de Nosso Senhor. Em todas as estações havia velas acesas, mas em uma, em especial, queimavam muitas mais, diante de mulheres de mãos postas em oração. Era a estação em que Jesus consola as mulheres de Jerusalém. Como o inconsciente coletivo fala! Esse dado de fé me levou a uma certeza: elas sabem que Jesus entende de suas dores, e por isso unem-se às mulheres de Jerusalém para serem consoladas por Ele.

Elas sofrem em silêncio, não por acostumarem-se à dor, mas por não mais terem voz para gritar. O vício de seus familiares as faz sofrer como quem hospeda um câncer no corpo. A morte prematura de seus amados as dilacera como quem amputa os próprios membros e vive pela metade, enquanto vão enterrando a si mesmas. Padecem de medos que as fazem rezarem para que a noite demore a chegar, para não serem violentadas em seus corpos exauridos pelo cansaço da dura lida por aqueles que deveriam defendê-las, e que a bebida transformou em ameaça.

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Essas mulheres não caminham para as sepulturas, mas para os altares reservados por Deus no Céu. Carregam pelo corpo as marcas do amor – rugas e calos – e os sinais do martírio – hematomas e cicatrizes. Nestas florestas, existem jardins. São as potiras (flores) do Divino Jardineiro, delicadas como as violetas, belas como as rosas, resistentes como as orquídeas, muitas vezes pisoteadas pela violência masculina, mas que Deus faz levantar-se com a graciosidade heroica que lhes é própria.

Chorar fala de suas dores. Rezar fala de suas esperanças. Sepultar fala de seus sofrimentos. Gerar e parir fala de seus sonhos. Enquanto me falam, olham para baixo, como quem se envergonha de sua condição. Enquanto me ouvem, olham para além de mim, como quem sente os movimentos das sementes da esperança que carregam e que, muitas vezes, ficam esquecidas. Que os sonhos sejam os lenços que sequem as lágrimas que a dor as faz verter. Que os secretos sofrimentos a mim confiados, pela persistência de minhas orações, convertam-se em esperanças pulsantes. Que a voz de minhas orações por vocês, um dia, se torne o grito de justiça por vocês.

Ó São Gabriel destas terras e cachoeiras, cobre essas meninas dos olhos do Criador com tuas asas. Ó cachoeiras de São Gabriel, levai para as profundezes do Rio Negro as lágrimas de suas índias que aumentam as forças de suas águas. Ó Arcanjo protetor deste lugar, assim como trouxeste de Deus a alegria para Maria, leva para o mesmo Deus as dores e sonhos dessas tantas Marias.

Pe. André Ricardo Panassolo é do clero da diocese de Amparo e missionário atuando na Amazônia pelo Projeto Missionário entre os Regionais Sul 1 e Norte 1 da CNBB

 

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