Se hoje mais uma vez nos alegramos porque Cristo Nosso Senhor ressuscitou, nos alegramos também porque Ele alcançou para nós a redenção e a ressurreição. Não é senão por sublime experiência mística que Santo Agostinho se expressou numa forma que poderia ser mal entendida como um paradoxo no mínimo irreverente: “Ó feliz culpa, a de Adão, que nos trouxe tão grande Salvador”. Na força da ressurreição do Senhor ressuscitamos com Ele, entendemos o sentido último de nossa vida e assistimos a esperança iluminando a face da terra. Toda a criação se alegra com a certeza de sua própria restauração operada pelo Ressuscitado, esperando, como afirma o Apóstolo Paulo, “de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8, 23). E nós, cristãos, criados por Deus, redimidos por Cristo e santificados pelo Espírito Santo, podemos caminhar por este mundo de cabeça erguida, louvando a Deus, amando-nos uns aos outros e cuidando da criação. Tudo assim como diz a Palavra de Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22, 37-40). E “cultivarás e guardarás a criação” (Gn 2,15).

As passagens do Novo Testamento, notadamente dos quatro Evangelhos, que se referem à ressurreição de Jesus, falam das aparições de Jesus ressuscitado, do sepulcro vazio, da fé na ressurreição e do seu anúncio. O Evangelho deste domingo da Páscoa é de São João 20, 1-9. Na Missa vespertina a Liturgia permite que se leia o Evangelho de Lucas 24,13-35.

Tendo presente o Evangelho de João, o Apóstolo apresenta a fé pascal num crescendo que vai se aperfeiçoando: do “ver sem crer” (20,1.5.6) para o “ver e crer” (20,8.25.27-29a) até o “crer sem ver” (20,29b).

Maria Madalena foi de madrugada ao sepulcro de Jesus e viu que a pedra tinha sido retirada. Ela voltou correndo indo ao encontro de Simão Pedro e João, informando-lhes que o sepulcro estava vazio e não sabia onde tinham levado o Senhor. João saiu correndo para ver e chegou antes, esperando que Pedro, que era mais velho, chegasse também para deixá-lo entrar no sepulcro por primeiro. Depois, João entrou, viu os sinais – as faixas de linho e o pano com que foi coberto, tudo bem dobrado num lugar à parte – e acreditou. Noutra ocasião, Tomé precisou ver e tocar com seus dedos as chagas para crer, quando Jesus disse: “Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram”. Como João comenta: “De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos”. Maria Madalena tornou-se a primeira mensageira da ressurreição de Jesus, foi ela quem por primeiro levou aos discípulos a notícia do sepulcro vazio e do Ressuscitado.

Na primeira leitura da Missa tirada dos Atos dos Apóstolos – At 10, 34.37-43 – São Pedro tomou a palavra em nome dos Apóstolos e pregou ao povo dando testemunho do que Jesus fez, da sua morte e ressurreição: “Nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, pregando-O numa cruz. Mas Deus O ressuscitou no terceiro dia, concedendo-Lhe manifestar-se não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos. E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus O constituiu juiz dos vivos e dos mortos”.

Na Oração da Missa, o celebrante convida o povo a elevar a Deus esta oração: “Ó Deus, por vosso Filho Unigênito, vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concedei que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova”.

Prezado leitor e leitora, desejo a você e seus familiares votos de feliz e santa Páscoa.

Por Dom Caetano Ferrari, Bispo de Bauru